segunda-feira, 8 de março de 2010

Confira texto de Alexandre Santos sobre a exposição que abre dia 11, de março


Da referência ao artifício

Se em muitas culturas o céu é manifestação da transcendência e da sacralidade, os céus artificiais de Diego Amaral e Túlio Pinto são profanos por excelência. Em sintonia com a contemporaneidade artística, estes céus privilegiam o diálogo entre dois processos artísticos diante de um site specific que lhes serve de desafio. Em detrimento das referências mais óbvias, nos céus bidimensionais de Diego percebe-se um apelo à ausência, comparado ao ambiente obscuro da galeria. Nas suas imagens, situadas entre o registro performático e paisagístico, os elementos gráficos servem para desfazer expectativas representacionais, ao mesmo tempo em que alinham a reprodutibilidade técnica com o fazer manual. Por outro lado, a partir dos seus arranjos tridimensionais, Túlio propõe céus compostos de ar e leveza, que brotam do abismo quase vertiginoso da galeria. São céus lúdicos e efêmeros que flutuam sob os nossos pés, trazendo relações de equilíbrio e limite entre os mais prosaicos materiais. Apesar de suas diferenças, ao constituírem uma ambientação poética inquietante, estes dois artistas são complementares e nos lembram, por outro lado, que o céu é efetivamente um corpo paradoxal: informe e infinito de possibilidades.

Alexandre Santos
Março de 2010

quarta-feira, 3 de março de 2010

Céus Artificiais de Diego Amaral e Túlio Pinto



A Coordenação de Cinema, Vídeo e Fotografia da Secretaria Municipal da Cultura de Porto Alegre inaugura dia 11 de Março, às 19h, exposição dos artistas Diego Amaral e Tulio Pinto, na Galeria Lunara.
A exposição, intitulada Céus Artificiais, propõe uma utopia emergente para dentro da Galeria. A parceria entre Diego Amaral e Túlio Pinto traz o azul como indicador simbólico de um lugar ideal e unindo gestos opostos, gera uma geografia subjetiva. Na mostra, que segue até o dia 4 de abril, os artistas mostram o confronto entre seus processos. Por um lado, a reprodução da ausência através da linguagem fotográfica; por outro, a ativação do espaço pela presença material.

Num contexto digital, Diego Amaral opta pelo uso de uma câmera de filme 35mm. Seu universo imagético é construído através de criteriosa composição e o mínimo de informação visual. A hegemonia do azul, reproduzido mecanicamente em suas fotos, é confrontada pelo gesto seco, objetivo e irreprodutível. Munido de um marcador preto, o artista gera fronteiras presentes sobre planos pretéritos. A leveza implícita nas fotografias acaba evidenciando o peso e a inércia das imagens cristalizadas no papel, numa negação da queda a qual estamos submetidos.

Dialogando com isso, Túlio Pinto reativará a tremonha existente no espaço da galeria em uma instalação in situ. Com um ventilador e bolas azuis, o artista interage com o espaço e traz movimento à sala ao fazer a cor flutuar na galeria, que, apesar de situada no alto de uma edificação, assemelha-se a um subsolo. Em um gesto lúdico, o carvão, que antes era armazenado no local, será substituído pela cor celeste das bolinhas "pairando" no ar.


Céus Artificiais
Exposição de Diego Amaral e Túlio Pinto
Abertura: 11 de março, 19h
Visitação de 11 de março a 4 de abril,das 9h às 21h
Galeria Lunara – 5° andar da Usina do Gasômetro.
Informações: (51) 3289-8133

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Basta este Nada até dia 28 de fevereiro na Lunara















Segue aberta à visitação, até dia 28 de feveriro a exposição Basta este Nada, de Eduardo Montelli, Juliano Ventura, Letícia Bertagna e Janaína Kremer.




sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Galeria Lunara apresenta nova exposição reunindo três jovens artistas


A partir de quinta-feira, dia 21 de janeiro, às 19h, a Coordenação de Cinema, Vídeo e Fotografia da Secretaria Municipal da Cultura de Porto Alegre inaugura a exposição Basta Este Nada, na Galeria Lunara, localizada no 5º andar da Usina do Gasômetro.

A exposição mostrará, nos procedimentos de três jovens artistas – Eduardo Montelli, Juliano Ventura e Letícia Bertagna –, um ponto de alternância entre o corriqueiro e o surpreendente, o sentido e o não-sentido, vividos no mundo concreto. A partir da captação e da manipulação digitais da fotografia e do vídeo, os trabalhos são concebidos em meio a um processo de ênfase no trivial.

Em Cão sem Rumo, Eduardo Montelli apresenta uma curtíssima captura em movimento de um cão também em movimento transformada em uma sequência de fotografias. Nestes recortes de instantes, percebemos a relação de ausência e presença trazida pela transição da paisagem quase vazia para passagem da figura do cão.

Ainda nessa tensão entre imagem e ausência está o trabalho Golpes de Luz em Ambiente de Vídeo, de Juliano Ventura, que, por conta de suas grandes variações de luz, faz a pessoa parada em frente à câmera aparecer e desaparecer repetidamente. A luz do vídeo tem o potencial de interferir na iluminação do espaço onde for inserido.

Aproximando-se de Estimação e Suspensão, trabalhos provenientes de instalações experimentais concebido por Eduardo Montelli, a série Extremo, de Juliano Ventura, elaborada com a conversão de uma combinação dos fragmentos de uma imagem impressa para o formato digital, sugere possíveis interferências das imagens no campo dos objetos reais.

Há ainda o vídeo Uma Canção para o Útero, de Letícia Bertagna, onde o cotidiano doméstico é indagado por ações que migram sutilmente entre o que diz e o que não diz respeito a ele mesmo. Trata-se de uma vídeoperformance baseada em poema homônimo (e inédito) da poeta pelotense Angélica Freitas. O vídeo apresenta uma série de ações vividas/experimentadas pela atriz Janaína Kremer, atividades estas que sugerem uma certa impossibilidade de serem cumpridas, finalizadas.


Basta Este Nada
de Eduardo Montelli, Juliano Ventura, Letícia Bertagna e Janaina Kremer

Coquetel de Abertura: 21 de janeiro de 2010, às 19h
Visitação de 22 de Janeiro a 28 de Fevereiro

www.julianovent.blogspot.com - blog de Juliano Ventura
www.eduardomontelli.blogspot.com – blog de Eduardo Montelli
www.meuprego.blogspot.com – blog de Letícia Bertagna


segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Thomas Demand segue até dia 17 de janeiro na Galeria Lunara

Na Galeria Lunara, até 17 de janeiro de 2010, Demand apresenta a série inédita The Dailies, que apresenta características bastante distintas do conjunto comumente conhecido de sua obra. Além das imagens serem apresentadas em formato menor que de costume, mesmo porque reproduzem cenas cotidianas ou rotineiras, elas permitem uma maior empatia com o público e funcionam como blagues, flashes prosaicos do dia-a-dia.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Conversa com Thomas Demand dia 14, às 15 h - na Av. Independencia , 745

O artista Thomas Demand, que está em Porto Alegre para participar do coquetel de abertura de de sua exposição na Galeria Lunara dia 14 às 19h, participará de uma conversa aberta ao público no mesmo dia 14, às 15h, na Av. Independência, 745.


sexta-feira, 6 de novembro de 2009

A Coordenação de Cinema, Vídeo e Fotografia da Secretaria Municipal da Cultura de Porto Alegre, em parceria com o Instituto Goethe, inaugura na próxima semana na Usina do Gasômetro o Projeto Berlim, que inclui uma exposição do renomado artista alemão Thomas Demand, na Galeria Lunara (com coquetel de abertura no sábado, 14 de novembro, às 19h, com a presença do artista) e uma mostra de filmes na Sala P. F. Gastal (a partir de terça-feira, dia 10 de novembro). O evento marca a passagem dos 20 anos da queda do Muro de Berlim, ocorrida em 9 de novembro de 1989, e o relevante papel desempenhado pela metrópole no cenário cultural contemporâneo.

MOSTRA DE FILMES

A mostra de filmes programada pelo Projeto Berlim apresenta uma seleção de títulos marcantes ambientados na cidade alemã, um cenário recorrente ao longo da história do cinema, desde os seus primórdios, atraindo a atenção de diretores de distintas nacionalidades. A mostra reúne 15 títulos realizados em períodos variados: de Berlim, Sinfonia de uma Metrópole (1927), a clássica obra de vanguarda dirigida por Walter Ruttmann ainda no cinema mudo, passando por produções rodadas nas suas ruínas logo após o final da Segunda Guerra Mundial ou ainda pelas visões da cidade dividida pelo muro nos anos da Guerra Fria, até chegar à década de 1990, com obras ambientadas numa Berlim já reunificada. Uma seleção que forma um painel multifacetado da metrópole mais fascinante do século XX.




THOMAS DEMAND

Um dos mais conceituados artistas contemporâneos, com passagem pelos principais museus do mundo, Thomas Demand irá exibir um conjunto de obras inéditas pela primeira vez no Brasil. Segundo o Coordenador de Cinema, Vídeo e Fotografia da SMC, Bernardo José de Souza, a
acontecimento de extraordinária importância na vida cultural da cidade, já que este alemão, residepresença de Demand em Porto Alegre é umnte em Berlim, tem sido apontado pela crítica internacional como autor de alguns dos trabalhos mais instigantes da arte contemporânea: “Sob a aparente placidez das obras de Thomas Demand percebe-se uma atmosfera de inquietação latente. Ao observador desavisado, e não familiarizado com o processo criativo do artista, resta a intuição como chave única para o ingresso nos ambientes frequentemente burocráticos e assépticos fotografados por ele. Situada em espaços intermediários, a obra de Demand logra suspender momentaneamente a realidade ao criar zonas neutras que desafiam a percepção do espectador à medida em que põem em xeque a atribuída correspondência entre a imagem fotográfica e o mundo real que ela supostamente retrata”.

Partindo de fotografias encontradas nos meios de comunicação de massa, não raro carregadas de matizes políticos (embaixadas, a Casa Branca, a cozinha clandestina de Sadham Hussein), ou de ambientes altamente familiares, de características universais (um céu estrelado, uma floresta), o artista se propõe a tarefa hercúlea de desenvolver maquetes em escala real, feitas de cartolina e papel, as quais reproduzem quase à perfeição as imagens originais. Superada esta etapa, ele retorna ao suporte fotográfico para registrar e perenizar esses espaços artificialmente construídos e só então levá-los a público em galerias e museus no formato bidimensional. Uma vez concluído o processo, via de regra os cenários são destruídos.

Na Galeria Lunara, de 14 de novembro de 2009 a 17 de janeiro de 2010, Demand irá mostrar a série inédita The Dailies, que apresenta características bastante distintas do conjunto comumente conhecido de sua obra. Além das imagens serem apresentadas em formato menor que de costume, mesmo porque reproduzem cenas cotidianas ou rotineiras, elas permitem uma maior empatia com o público e funcionam como blagues, flashes prosaicos do dia-a-dia. Ainda, segundo Bernardo José de Souza, “os espaços divisados pelo artista são literalmente naturezas mortas, cujos vestígios de vida se apresentam exclusivamente no plano metafísico”.

abaixo, entrevista concecida por Thomas Demand a Fabio Cypriano em out/2009

Leves, felizes e um pouco bobas

O artista alemão Thomas Demand escolheu Porto Alegre para apresentar sua nova série “Dailies”, um trabalho inédito e um tanto distinto de suas imagens mais conhecidas, em geral em grande escala, fotos de cenários construídos em papel que parecem reais. Pode ser a Casa Branca, na série “Presidency” (2008), uma floresta, como em “Clearing” (2003), exibida na Bienal de São Paulo, em 2004, ou simplesmente um banheiro, “Bathroom” (1997).

Como um ilusionista, Demand apresenta imagens que não parecem falsas, mas afinal numa era marcada pelo photoshop e por fotos digitais de simples manipulação, o real deixou de ser uma questão. Mesmo assim, quase arquetípicas ou mesmo ideais, essas imagens são tão corriqueiras como a própria realidade.

Um de seus trabalhos mais impressionantes foi “Grotte” (2006), a imagem de uma imensa caverna falsa, exposta na ilha de San Gorgio Maggiore, por ocasião da Bienal de Veneza, em 2007, em uma exposição individual organizada por Germano Celant, da Fundação Prada. Na exposição, via-se primeiro a imagem, em grandes dimensões (198 x 440 cm); depois uma sala repleta de cartões-postais e documentos sobre cavernas, para se chegar à última sala, a maquete de 36 toneladas que serviu de modelo para fotografia. O artista nascido em 1964, na cidade de Munique, revelou aí seu processo, mas, ao contrário de um mágico que quando revela seu truque faz com que ele não tenha mais graça, tornou aí seu trabalho ainda mais intrigante.

Atualmente, Demand apresenta uma retrospectiva de sua obra na Galeria Nacional, em Berlim, um dos mais belos prédios modernistas de Walter Gropius, onde possivelmente encerre um ciclo. Na entrevista a seguir, concedida especialmente por ocasião da mostra gaúcha, o artista diz que escolheu o Brasil, para sediar uma nova fase, que se inaugura com “Dailies”. Ele conta que buscou imagens “leves, felizes e um pouco bobas”, o que pode parecer um pouco ingênuo. Mas quando a arte nos deixa nesse estado, ela não nos torna mais humanos?

Fabio Cypriano, outubro de 2009

Suas fotos de maquetes que se parecem como se fossem lugares reais são o que melhor conhecemos. O que você fez antes, Como você começou a criá-las? Estudou fotografia?

Thomas Demand: De certa forma, sou um amador, sem nenhum tipo de treinamento em fotografia e nem me vejo como um. Estudei pintura e escultura e, por muitos anos, trabalhei apenas com coisas sem valor, papéis e objetos de vida curta a partir de materiais baratos. Eu sempre pensei que poderia fazer mais versões para estudo deles, se fosse o caso.


Em todos seus trabalhos que já vi, nunca há pessoas neles, o que nos faz focar sempre no aspecto arquitetônico de suas imagens. Esse é o centro de sua atenção? Por quê?

Demand: Eu trabalho com espaços que, espero, atraia o observador e sua imaginação. Creio que figuras humanas nesses locais iriam, basicamente, transformariam a imagem num momento anedótico.

“Presidency” deveria ser uma cópia fidedigna à Casa Branca? Ou você se preocupa em criar um mundo melhor em suas imagens?

Demand: Para mim, é mais parecido com um palco: uma caveira, um rosto enegrecido e uma fala. Todo mundo sabe que peça é essa: “Hamlet”, apesar do lugar, do tempo, do ator etc. Pense em todos os programas de TV, as caricaturas, os filmes com Harrison Ford... Todos eles são sempre sobre representação, não sobre como o lugar realmente é. Eu sei que você sabe e você sabe que nós sabemos.

Melhor lugar? Não, essa não é minha intenção. Eu não tenho uma missão, eu só faço trabalhos que desafiem minha inteligência e não me entediem. Felizmente, outros vêem isso da mesma forma e parece que eles vêem alguma coisa nesses trabalhos que não percebem em nenhum outro lugar dessa forma. Eu não tenho certeza se meu trabalho se insere na classificação “boa arte”, mas boa arte sempre me faz ver o mundo de um ângulo diferente, ou então, de repente, me tornar consciente do que vejo.

Em seus trabalhos, alguns espaços são reais, como a Casa Branca, na série “Presidency”, e outros ficcionais, certo? Você pode descrever o processo de escolha de um tema para ser transformado em imagem?

Demand: Todos eles são reais, pois eles estão à frente de minha câmera. “Presidency” foi um trabalho comissionado, mas a Sala Oval nunca teve esse aspecto. Eu misturei cinco versões diferentes em uma só: o carpete é Clinton, a cortina, do Bush pai, as coisas no armário, do Bush filho, e assim por diante. Não era para ser a imagem de um lugar exatamente como ele é, mas de um lugar que pode ser reconhecido.


Já que o mundo é tão cheio de coisas, porque criar imagens falsas com a fotografia? Você admitiria que, no final, você é mais um escultor que um fotógrafo?

Demand: Apenas para pagar imposto de renda eu tenho que declarar que tipo de artista eu sou, e eu não me preocupo em me categorizar de outra forma. A meu ver, eu crio imagens e a forma como eu as faço, espero, seja interessante. Como o pintor usa tinta a óleo e o escultor, gesso, eu utilizo papel e um aparato para fazer imagens.

As coisas se confundem também, e todas elas são temporárias, afinal. Assim, enquanto eu não produzo lixo venenoso, estou OK em trazer coisas para o mundo. O único problema é se eles atrapalham seu espaço, então você precisa dar um jeito de passar a volta deles.

Então, que tipo de artista você se declara quando paga impostos?

Demand: Escultor. É melhor para pagar impostos.

Por que mostrar a maquete de “Grotte" (Gruta), em Veneza, 2007?
Demand:
Por que não? Se o processo é bom e sólido, você pode apresentá-lo uma vez, não? Você disse que se lembra dele e eu realmente acredito que isso é o melhor que poderia ocorrer. Eu visitei o ateliê do [Francis] Bacon, uma vez, e me surpreendi muito com o quanto eu aprendi fazendo isso. Pode-se se dizer que seria muito estúpido fazer isso, mas de fato não foi. Eu fiquei também muito satisfeito com o contexto: uma ilha, um festival, não ser um museu, e contar com três elementos em uma só instalação: a documentação, a imagem e o objeto que foi fotografado.


Seu trabalho na Bienal de São Paulo, em 2004, era bastante complexo, misturando imagem e vídeo. “Forest” (floresta), a fotografia, foi inspirada no parque Ibirapuera? Como foi criar esse trabalho?

Demand: Eu queria trabalhar com arquitetura, o que é sempre uma motivação para mim. O que foram as estruturas do Niemeyer, pelas quais se observa o parque, mas que ainda são chão e teto, muito panorâmicas, o que se transforma num espetáculo. Eu pensei que poderia refletir isso nas paredes externas da construção que fizemos dentro do pavilhão. Mesmo essa estrutura que criamos parecia que fazia parte do espaço _que foi o único oferecido pelo curador, além do banheiro masculino. Então, misturamos elementos do prédio junto com uma nova parte e acrescentamos a sala de cinema. Eu entendi todo esse complexo como um pavilhão que construí lá. Não foi uma mostra temática, eu reuni seis trabalhos que poderiam estar juntos, mas eu não busquei passar uma mensagem coerente com essa combinação.

Quem constrói os modelos que você usa? O que você faz com eles depois de fotografá-los?

Demand: Sou eu mesmo quem os faz, eles tem tamanho natural e eu os jogo todos no lixo depois que os usei.

Sua nova série “Dailies” é menos suntuosa do que seu trabalho anterior, apesar de “Bathroom”, de 1997, que se parece com ela. Por que se tornar tão introspectivo agora?
Demand:
Eu queria trabalhar com imagens que carregam sua própria razão de existência, não porque elas contam a história de um acidente que não é visível na imagem, ela mesma. Mas de fato pertencem à mesma família do trabalho que você mencionou, talvez parentes distantes, pois eu continuo buscando pegar e recriar um momento no (meu) tempo. Esse tempo não é memória pública, mas a minha própria. No entanto, no fundo eu não acredito que haja tanta diferença entre os indivíduos. Ao mesmo tempo, é obviamente apenas aquilo que você vê, no sentido que não é nem simbólico, nem surreal ou moralizante. É apenas aquele pequeno descobrimento naquele momento que se foi como qualquer outro momento mais para frente. Eu gosto muito do fato que todos os celulares têm câmeras agora e eu as uso muito, então em determinado momento eu queria utilizar todo o material que coletei ao longo dos anos. Creio que os outros trabalhos são como romances enquanto esses são poesias – talvez poemas com rimas, mas você pode pegar a imagem.


Normalmente, suas fotos, talvez porque não retratem pessoas, pareçam um pouco melancólicas, mas “Dailies” são bastante felizes e engraçadas, como aquela com o banquinho e uma flor estampada sobre ele. Esse é um momento feliz em sua vida? Ou a arte deveria ser mais feliz agora para “compensar a tristeza do mundo”, como dizia Pina Bausch?

Demand: Eu pensei que elas deveriam ser leves, felizes e um pouco bobas também. E rápidas de serem feitas, para não se pensar: quanto tempo isso levou para ser feito. Quando se faz um filme longa-metragem, todo fim do dia observa-se o que foi filmado durante o dia e isso se chama “Dailies”: como a colheita, mas não o filme ainda. Esse projeto ainda está relacionado com outros trabalhos, mas para mim, o Brasil é um lugar felizes, um começo fresco, e essa exposição cabe bem aí. Estou tendo uma grande retrospectiva em Berlim ao mesmo tempo, que se chama “National Gallery”, e você pode imaginar que a natureza dessa mostra é muito diferente da que vou realizar em Porto Alegre. Ambas ocorrem de forma paralela e eu gosto muito dessa oportunidade.

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Thomas Demand

Sob a aparente placidez das obras de Thomas Demand percebe-se uma atmosfera de inquietação latente. Ao observador desavisado, e não familiarizado com o processo criativo do artista, resta a intuição como chave única para o ingresso nos ambientes frequentemente burocráticos e assépticos fotografados por este alemão, residente em Berlim, autor de alguns dos trabalhos mais intrigantes da arte contemporânea.
Situada em espaços intermediários, a obra de Demand logra suspender momentaneamente a realidade ao criar zonas neutras que desafiam a percepção do espectador à medida em que põem em xeque a atribuída correspondência entre a imagem fotográfica e o mundo real que ela supostamente retrata.
Partindo de fotografias encontradas nos meios de comunicação de massa, não raro carregadas de matizes políticos (embaixadas, a Casa Branca, a cozinha clandestina de Sadham Hussein), ou de ambientes altamente familiares, de características universais (um céu estrelado, uma floresta), o artista se propõe a tarefa hercúlea de desenvolver maquetes em escala real, feitas de cartolina e papel, as quais reproduzem quase à perfeição as imagens originais. Superada esta etapa, ele retorna ao suporte fotográfico para registrar e perenizar esses espaços artificialmente construídos e só então levá-los a público em galerias e museus no formato bidimensional. Uma vez concluído o processo, via de regra os cenários são destruídos.
Ao longo da última década, Demand consagrou-se como singular artista contemporâneo ao valer-se de processos criativos de técnicas mistas, que vão da mencionada confecção de maquetes (algumas delas já vistas em espaços expositivos, exceção à regra) ao registro fotográfico, passando inclusive pelo cinema. Neste último caso, ele produz a animação de seus cenários (uma escada rolante, um túnel rodoviário à semelhança daquele onde morreu Lady Di, em Paris) a 24 quadros por segundo, levando ao extremo sua busca por vestígios de vida em espaços inanimados. Embora escultor de formação, o artista se revela profundo conhecedor da técnica fotográfica ao fazer sofisticado uso da iluminação que lança sobre suas maquetes, indispensável à aura de realidade que emana de suas obras.
Para além do questionamento, ora político ora semiótico, da imagem fotográfica, e do virtuosismo do artista – capaz de enganar os sentidos do espectador apressado, tamanha a verossimilhança de suas obras –, nos trabalhos de Demand repousa uma expectativa de ação fadada à inércia, uma promessa narrativa apenas possível se artificialmente/mentalmente desenvolvida. Inabitados – jamais se vê figura humana em seus trabalhos –, os espaços divisados pelo artista são literalmente naturezas mortas, cujos vestígios de vida se apresentam exclusivamente no plano metafísico.
The Dailies, a exposição inédita que a Prefeitura de Porto Alegre tem a honra de receber em primeiríssima mão, apresenta características bastante distintas do conjunto comumente conhecido da obra de Demand. Além das imagens serem apresentadas em formato menor que de costume, mesmo porque reproduzem cenas cotidianas ou rotineiras, elas permitem uma maior empatia com o público e funcionam como blagues, flashes prosaicos do dia-a-dia.
Por fim, gostaria de agradecer imensamente a generosidade com que o artista recebeu este convite, tornando possível o contato real do público porto-alegrense com sua instigante obra. Não poderia aqui deixar de mencionar o apoio fundamental do Instituto Goethe, no nome de seus diretores Alfons Hug e ??? Sauer, parceiro em tantas iniciativas desta Prefeitura, que foi sensível à importância do presente projeto e tanto nos ajudou a torná-lo viável.

Bernardo José de Souza
Coordenador de Cinema, Vídeo e Fotografia
Secretaria Municipal de Cultura
Prefeitura de Porto Alegre

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Cecil Beaton segue em exibição até 8 de novembro


Até dia 8 de novembro, sempre de terças a domingos, das 9 às 21h, a exposição Portraits, de Cecil Beaton pode ser visitada na Galeria Lunara, localizada no 5º andar da Usina do Gasômetro.

Dentre outras, voce pode ver a foto de Marianne Faithfull, reproduzida acima.


Cecil Beaton é o que podemos chamar de profissional completo pois era fotógrafo, designer, e artista plástico. Ele nasceu em Hampstead na Inglaterra em 1904 e morreu em 1980. Ficou famoso pelas belíssimas fotos com aspecto romântico e dramático, trabalhou como fotógrafo para as revistas Vanity Fair e Vogue, sempre com uma visão pessoal fazendo fotos inusitadas e com uma estética diferente para a época. Desenhava muito bem, trabalhou como designer em 1958 quando desenhou o figurino do filme "Gigi", que lhe deu o Oscar de Melhor Figurino, mas o seu trabalho mais expressivo foi sem dúvida o figurino de "My Fair Lady" em 1964 o lhe garantiu mais 2 Oscar pelo figurino e direção de arte, pois trouxe de volta o luxo e o glamour da Belle Epoque.